sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Correios


Pó de carta vicia. Foi isso que ouvi o diretor regional da ECT dizer na palestra de apresentação quando entrei na empresa, há 4 anos e meio.
Deve ser por isso que é difícil sair, mesmo tendo pensado e repensado essa decisão em casa com minha família durante meses e concluindo que seria o melhor pra todos nós no momento atual.
Aí hoje eu fui lá, segura e confiante, e trabalhei meu último dia. Abri e fechei o sistema com a minha matrícula e senha pela última vez, fiz cadastros e entregas e triagens pela última vez, abri e tranquei meu armário e meu cofre, reclamei da iluminação fraca do banheiro, vesti e tirei meu crachá... Tudo o que eu faço todos os dias, só que dessa vez foi pela última vez. E sabe qual a sensação ao chegar em casa? De que larguei um pedacinho meu pra trás.
Normal, né? Eu passava mais tempo no trabalho do que em casa com a família. Trabalhava, comia, escovava os dentes, andava, olhava, conversava, ria, passava raiva, tudo lá. De repente, beijinho, tchau. Estranho, né? Mas ficou um buraquinho vazio aqui.
Esse último mês foi peculiar. Enquanto cumpri 30 dias de aviso prévio trabalhando, saboreei cada serviço que eu adorava fazer e, pasmem, os que eu não gostava também. É a magia da última vez. Dizem que a gente se acostuma até com o que não gosta, e tenho que concordar. Lembrei do perrengue que passei quando entrei na empresa e fui com mais 3 colegas morar um mês em Belo Horizonte, sendo que nos avisaram na véspera, lembrei com saudade da turma ótima que conhecemos lá, dos passeios que fizemos, dos professores. Eles falavam da empresa de um jeito que me fez chegar apaixonada no primeiro dia de trabalho. Depois o encantamento passou, mas ficou carinho, sabe? É como se a empresa fosse alguém da família, no sentido bom e no ruim. Mas que passa a fazer parte da gente, passa.
Aí fui lembrando das partes do caminho que me fizeram chegar até aqui, dos meus erros e acertos, até que aprendi tanta coisa, nossa, gente, muita coisa mesmo. Foi uma escola. Gratidão.
E aproveitei também pra fazer uma lista de coisas das quais vou sentir falta e das quais não vou. Não falei dos meus problemas pessoais porque gente venenosa e problema de relacionamento tem em qualquer lugar, né? Procurei focar nas coisas específicas desse meu emprego, e me rendeu umas risadas no final.
A lista do não ficou grande, hahaha!
Mas a lista do sim vai fazer falta todos os dias :(
Lá vai:

NÃO, eu não vou sentir falta de:

- Achar CEP de endereço em Brasília
- Logística reversa com preenchimento de check list
- Captar telegrama de mais de uma página às 16h59
- Guichê sem vidro
- Ouvir problemas pessoais de pessoas desconhecidas, continuamente
- Trabalhar com papéis AND ventilador
- Não tem selo de 50 centavos
- Lote de formulários de AR sem cola
- Cliente que não deixa de falar ao celular quando é chamado/atendido, apenas pára na sua frente e continua conversando ao telefone como se você não estivesse ali (enquanto há outras pessoas esperando na fila, muito provavelmente)
- Cliente que atende chamada no celular durante a vez dele, faz sinal pra esperar se tentarmos falar com ele e termina sua conversa sem pressa para só depois voltar aonde estávamos
- Pernilongos furtivos debaixo da mesa de trabalho, atacando minha perna por cima da calça
- Quando o cliente pede a fita adesiva emprestada e, quando devolve, perdeu a ponta
- Quando o cliente pede a fita adesiva empresada e não devolve (e caneta, tesoura, extrator de grampo, cola, trena, grampeador...)

SIM, eu vou sentir muita falta de:

- Selos
- Preencher formulários de AR
- Embrulhar caixas
- Crianças boquiabertas, impressionadas com como eu digito letras e números sem olhar o teclado do computador, perguntando "tia, como você consegue fazer isso?"
- Conviver com os amigos que fiz

Hoje, na minha festinha de despedida, sentei e fiquei olhando pra cada um dos colegas e amigos enquanto conversavam distraídos. Senti gratidão pela presença de cada um na minha vida durante o tempo em que trabalhamos juntos e guardei a imagem de cada um deles sorrindo. Vou levar comigo.
Gente, bom, é isso. Não sei terminar esse texto. Estou com sensação de reticências ao invés de ponto final.
Me resta agradecer a todos que passaram por mim, me ajudaram, me ensinaram, me fizeram companhia nessa jornada.
Bora começar uma nova etapa, que a vida é curta e o tempo não pára.
Beijo grande.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Um desabafo, um convite e um conselho


Aconteceu uma coisa que não acontecia há algum tempo e não sei quanto vai demorar pra acontecer de novo: todo mundo aqui em casa está em férias. Eu, marido e filha. Todo mundo descansando, sem horário, comendo pizza na terça-feira como se não houvesse amanhã. Bagunça na cama, séries, jogos, música. Montamos a árvore de Natal.

Hoje o marido tinha um compromisso e, após o deixarmos no local, fomos passear – eu e a criança. Fomos ao centro da cidade, passeamos, fizemos compras, lanchamos, rimos das coisas, discutimos sobre como atrapalha não poder falar ao telefone dentro do banco enquanto esperávamos na fila, conversamos. Só eu e a minha filha.

Fomos a algumas lojinhas de bijuterias e escolhemos enfeites para os lindos cachinhos dela. Escolhemos JUNTAS. Normalmente eu faço isso correndo depois de engolir a comida no meu horário de almoço, escolho algo de que ela precisa ou acho que ela vai gostar e levo pra casa à noite.

Fomos a uma loja de calçados sem pressa, e ela pode escolher a sandalinha rosa que gostou depois de olhar todas, experimentar duas, três vezes, sem a gente ter que se apressar porque a loja já ia fechar, ou porque precisaríamos passar em outros tantos lugares no pouco tempo que havia disponível.

Sentamos pra comer e ninguém teve que sair andando com um salgadinho em uma mão e uma latinha de bebida em outra, comendo e andando ao mesmo tempo pra poder ser mais rápido.

Coisa boba, gente. E eu não me sentia tão feliz há muito tempo.

Eu quero convidar você, que está lendo esse texto, que ainda é jovem (mas nem tanto que tenha a vida toda pela frente e possa fazer o que bem entender da vida), a parar só um pouquinho e refletir.

Vale a pena?

Eu fico em função do trabalho das 7h às 19h. No fim de semana não sou ninguém. Perco a maioria das reuniões de pais, das apresentações da escola, das idas ao médico. Quando ela fica doente e precisa ficar em casa, meu marido cuida enquanto eu trabalho.
É claro que não dá pra escolher tudo nessa vida, se os filhos precisam ser alimentados e vestidos e entretidos e receber educação, alguém precisa trabalhar. Mas a parte que dá pra escolher, escolha com cuidado.

Há pouco tempo fui presenteada ao passar por um texto que falava sobre a rotina de uma antiga colega de faculdade que tem quatro lindos filhos e quase sufocou. Ela escolheu frear e ganhou tempo. Ganhou qualidade de vida.

Só parem e reflitam sobre isso. Não demorem demais, porque os filhos crescem muito rápido. Eles nunca vão ser crianças de novo. Você vai piscar e sua vida vai ter passado. Quando eu piscar,  não quero ter passado toda a minha vida trancada entre quatro paredes, sem ver o sol, sem sair com a minha filha pra fazer qualquer coisa que seja.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

R.I.P. Dona Maria



Dona Maria foi minha máquina de lavar roupas por 25 anos. Eu tinha apenas 4 aninhos, quase metade do que minha filha tem hoje, quando ela entrou para a família e começou a facilitar a vida da minha mãe. Depois eu herdei a Dona Maria e passei a ser a beneficiada: ganhei horas e mais horas com a ajuda dela, nessa vida louca de mãe/esposa/dona-de-casa/trabalho/faculdade que as mulheres tem hoje em dia.

Dona Maria foi envelhecendo e, assim como muitos idosos nas famílias de qualquer mortal, começou a "dar trabalho". Mas quem rejeita um familiar que dedicou a vida à nossa família? Ela passou por alguns reparos, mas a maioria dos idosos que conheço também fez uma cirurgia ou outra para garantir uma sobrevida melhor.

Nos últimos tempos, a visita do "médico" foi ficando mais frequente, e ultimamente eu já tinha que vigiá-la durante parte do processo. A gente sabe que a hora vai chegar, mas a gente adia... não pensa nisso... Como planejamos mais crianças, sabíamos que a capacidade modesta de 4kg acabaria sendo insuficiente qualquer hora dessas, mas deixa isso pra depois...

Dona Maria era de ferro! Ninguém conseguia carregá-la sozinho. Sempre que alguém me contava que estava decepcionado com a nova máquina, que era de plástico e em 3 ou 4 anos já era, eu comentava orgulhosa sobre a minha ajudante de mais de duas décadas: "bate tão bem que a roupa sai virada do avesso!"

Eis que na última sexta-feira, 10 de Julho, o marido me contou que era dia da pizza! Fiquei animada para comemorar o dia de um dos meus pratos favoritos e sugeri que fôssemos a um ótimo restaurante que um amigo está dirigindo numa cidade próxima, mesmo após uma semana extremamente cansativa e tendo que trabalhar no outro dia de manhã.

Acontece que a criança, também cansada, com a barriguinha já cheia de pizza e refrigerante, dormiu no caminho de volta. Eu sempre falo pra ela fazer xixi antes de dormir, mas quando chega dormindo, coloco direto na cama. Resultado: uma rodinha molhadinha e fedorentinha no lençol+colcha+edredom+colchão, que eu só vi ontem, domingo de manhã, porque passamos o sábado fora.

Antes de colocar isso tudo pra lavar, eu já tinha colocado as roupinhas dela da semana de molho, então prossegui. Foi quando notei um clic-clec diferente vindo da Dona Maria... ela não estava batendo bem. Mexi, voltei, adiantei, conversei... e ela voltou, claro! Dona Maria era supimpa mesmo! Mas depois da lavagem das roupinhas, coloquei o edredom e o clic-clec voltou... Não estava batendo e estava jogando a água fora durante o molho. Fiquei preocupada! Combinamos de chamar o "médico" hoje de manhã para dar uma olhada.

Enquanto eu trabalhava hoje cedo, recebi a fatídica mensagem do marido: a hora inevitável havia chegado para a Dona Maria. Mandei uma mensagem avisando minha mãe, que também havia sido íntima dela, e saí com o marido na hora do almoço para comprar uma ajudante nova. Escolhi uma maior, mais moderna, mas fiz questão de que fosse uma descendente da Dona Maria! Afinal, a família de alguém que trabalhou tão bem por tantos anos merece algum crédito.

Quando voltei pra casa à noite, ainda tinha uma coisa para resolver: o lençol e a colcha ainda estavam com xixi, porque Dona Maria era muito pequenina pra lavar tudo ao mesmo tempo. Resolvi levá-la à sua última jornada, respirei fundo, tomei um café e coloquei a roupa pra lavar.

O processo foi conjunto, metade automático dela e metade manual meu. Enxerguei todo o cansaço de vinte e cinco anos de trabalho sem férias. No finalzinho, após um demorado enxágue com ajuda até da mangueira do quintal, ela já não queria centrifugar. Já melancólica por me despedir da minha ajudante fiel e desanimada pensando em estender aquela roupa de cama à mão, sussurrei: "vamos lá, Dona Maria! Dá só mais um último gás!"

E como se me ouvisse, num último suspiro de dignidade e coragem, Dona Maria deixou bravamente o clic-clec pra trás, começou a centrifugar quase tão perfeitamente como sempre, rodou e rodou e deixou a roupa de cama da criança apenas úmida, pronta pra ir pro varal. Depois fez um clic-clec final, ficou em silêncio e foi para o seu merecido sono profundo, dessa vez sem ter mais que acordar. E como quem fecha carinhosamente os olhos de um ente querido quando chega a hora, fechei a tampa dela para sempre.

Descanse em paz, Dona Maria. Você foi a melhor lavadora!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Dahra e a mangueira


Às vezes eu me pego sentindo saudade de alguma coisa lá atrás.
Hoje lembrei da Dahra, uma linda cadela que tive, e senti saudade dela.
Eu não parava de encher o saco, meus pais concordaram que seria bom ter um cão de guarda no bairro residencial onde morávamos e foram a outra cidade comprar um filhote de pastor alemão. Mãe mansa, pai bravo. Eu tinha 10 anos e estava dormindo quando minha mãe chegou com aquele filhotinho fofíssimo e colocou na cama comigo.
Ela teve que ir pra outro lugar 6 anos depois, quando mudamos para um apartamento. Nunca mais vi, sei que foi muito bem cuidada e, em 2004, soube que ela morreu.

Dahra morria de medo de água. Mais que qualquer gato, mais que o Cascão.
Os cães dessa raça trocam o pêlo a cada seis meses, e é preciso escovar pelo menos uma vez ao dia. Tarefa impossível, já que ela gostava de ser escovada tanto quanto gostava de água. Mas não tinha medo da escova: ela mordia ou corria e impedia o meu trabalho.
Certa vez, resolvi ameaçá-la com a mangueira. Deixei Dahra sentada com a mangueira apontando pra ela, e ela sabia que sairia água de lá se eu usasse apenas uma mão e apertasse o gatilho.
Ela ficou imóvel, com os olhos arregalados na direção da mangueira, enquanto eu escovava todo o seu corpo.

Consequentemente, deixando que eu a escovasse pela primeira vez, ela descobriu que aquilo era gostoso. A raspadeira coçava e massageava as costas dela.
Depois desse dia, nunca mais precisei da mangueira. Assim que ela me via pegando a escova, sentava quietinha com as orelhinhas baixas e deixava, contente, que eu escovasse todo o seu pêlo.
Acho que esses cachorros nascem safados. E a safadeza deles deixa muita história pra gente lembrar.
Saudade dela...

domingo, 15 de maio de 2011

Mãe


Uma semana atrasado esse post sobre o dia das mães.
A semana foi corrida, o fim de semana foi dos piores, então vou escrever alguma coisa legal aqui e fingir que tá tudo bem.

Esses dias me perguntaram quando é o dia da filha, porque só a mãe que tem dia de ganhar presente anualmente, só por ser mãe.
Eu respondi que o dia da filha é quando ela vira mãe.
É o meu caso.

Sobre a minha mãe... a minha mãe é Mãe. Ela sabe que é minha Mãe. Tenho um anjo de sogra, que é uma segunda mãe, sempre preocupada e atenciosa, um amor. Tenho uma ex-vizinha, amiga da minha mãe, que é outra segunda mãe, sempre com palavras sábias e de incentivo. Mas minha mãe e eu moramos longe e podemos ficar o tempo que for sem nos falarmos, e ela sabe que ninguém vai tomar o lugar dela. E sabe que vai chegar aqui e ainda vamos ter a mesma conexão mãe-filha de antes.
Isso é incrível. Nós brigávamos tanto até eu ter uns 19 anos e, um dia, quando dei por mim, ela era a pessoa que eu mais admirava e defendia no mundo. Ninguém me aceita tanto quanto ela. Ninguém me conhece tão bem. Talvez nem eu.

Sobre a minha filha... de vez em quando me pego parada olhando ela brincar, ou dormir. Me pergunto como pode ser tão linda, tão inocente, tão minha e tão não-minha.
Ela é o melhor presente que eu poderia ganhar de dia das mães, todos os dias.